Espaço Vita acolheu “Mais Escola, Melhor Família”

Iniciativa que teve D. José Cordeiro como anfitrião contou com a presença e intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O Espaço Vita, em Braga, tendo como anfitrião D. José Cordeiro, Arcebispo Primaz, acolheu hoje a iniciativa do Correio da Manhã e da CMTV, “Mais Escola, Melhor Família”.

O projecto tem como objetivo discutir as realidades quotidianas das escolas e das famílias, concentrando-se em fenómenos como o bullying e o cyberbullying.

Entre os palestrantes de hoje, estiveram Paulo Sargento, professor universitário e psicólogo, Ricardo Rio, Presidente da Câmara Municipal de Braga, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, Carlos Neto, professor Catedrático Jubilado da FMH, Carlos Anjos, Presidente da Comissão de Protecção às Vítimas de Crime e Paulo Costa, Presidente da Associação Anti-Bullying.

Ricardo Rio afirmou que ninguém se pode conformar com a realidade do bullying, sendo absolutamente necessário e urgente erradicá-la. O Município encontra-se a preparar uma série de iniciativas que passam pela prevenção e sensibilização, bem como de acompanhamento, não só de potenciais infractores, mas das vítimas, que “merecem um acompanhamento especial”.

“Estes programas também têm que ter em conta a transfiguração da realidade destes dois anos, com uma inquietude permanente e que agravou e propicia este tipo de situações, como o cyberbullying”, frisou.

O Presidente da República, por sua vez, sublinhou que Braga é, por definição, a região mais dinâmica do país em termos de juventude. Falando da sua experiência como professor como “um sonho concretizado”, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o bullying sempre aconteceu, mas que há algumas décadas não se falava nisso.

“Boa parte da violência quando eu era criança era fora da escola, nas ruas e no trabalho – havia trabalho infantil – e nas famílias. Havia bullying na escola, mas não se falava nisso. Fazia-se de conta que os problemas não existiam”, observou.

No fim dos anos 70, início dos anos 80, com mais pessoas a irem para a escola, o bullying começou a crescer e a ser mais notado, a par de uma escalada de dependência de drogas e violência em geral. Terá sido quando a Comunicação Social começou a falar do fenómeno, referiu o Presidente.

“A violência na família está ligada à violência nas escolas: se há problemas internos, desemprego, dependência de álcool ou drogas… A escola projecta como um retrato as tensões da sociedade. Vemos que há uma subida de violência no mundo ou, pelo menos, do conhecimento dela. Tem de se encontrar uma maneira de se equilibrarem as sociedades que têm factores de stress e desequilíbrio”, frisou.

Marcelo Rebelo de Sousa adiantou ainda que há muitas formas de bullying que às vezes passam despercebidas, como a exclusão ou a falta de empatia e notou que, na maioria dos casos, as famílias de vítimas e agressores não chegam sequer a saber do que se passa por não terem tempo para estarem com os filhos e, por isso, não haver um ambiente de proximidade.

“A violência sofisticou-se e chega até nós todos os dias através das guerras, que estimulam a violência. A pandemia também a estimulou, criou stress. Ainda hoje não sabemos as consequências da pandemia na saude mental das pessoas. Esse stress convida à violência diferida, atrasada, tardia. O desconfinamento foi uma loucura, com as pessoas a quererem recuperar o tempo perdido. Há violência e stress contidos que estão a ser deitados cá para fora. Tudo isto somado tem na escola um peso monumental, porque a escola passou a ser o primeiro agente educativo. Os alunos estão mais tempo na escola do que com a família”, explicou.

O Presidente da República alertou ainda para o facto de o bullyingnão existir apenas nas escolas, mas também nas famílias, na política, no desporto e nos ambientes laborais, com os agressores a tirarem proveito daquilo que pensam ser uma vantagem sua para exercer violência intelectual, verbal, física sobre outros.

“Acho que não há ninguém que não esteja ligado ao bulllying: ou o praticou, ou foi vítima, ou interveio, ou não interveio. A violência é eu considerar que sou mais do que alguém, é um desrespeito pela outra pessoa. Ninguém é mais ou maior do que o pobre mais pobre, o mais escravizado dos escravizados, o menos tratado na sua humanidade. Só realizamos a nossa felicidade através dos outros, não somos ilhas. A verdadeira felicidade é em conjunto, colectiva, é sentirmo-nos bem quando estamos a fazer coisas boas em conjunto. A melhor parte da minha vida foi ter podido dar alguma coisa de mim aos outros, ajudá-los, não ter chegado a Presidente da República”, vincou. 

Depois de algum tempo de debate, coube ao anfitrião, D. José Cordeiro, o discurso de encerramento, no qual saudou vivamente a iniciativa do CM e da Cofina. Explicando que este foi mais um desafio a todos os presentes para contribuirem para humanizar a humanidade, o Arcebispo evocou a poesia de Sebastião Alba para dizer que todos somos feitos de encontros e experiências com os outros.

“Hoje ouvi e aprendi muito. O Papa Francisco lançou há pouco uma mensagem que o Correio da Manhã está a realizar: escutar com o ouvido do coração. Escutar é muito mais do que ouvir, é agir em conformidade”, indicou.

D. José Cordeiro recordou ainda Sophia de Mello Breyner, pedindo paz, esperança e justiça, “sem vencedor e sem vencidos”.

A Paz sem Vencedor e sem Vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos  

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos  

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Fazei Senhor que a paz seja de todos 
Dai-nos a paz que nasce da verdade 
Dai-nos a paz que nasce da justiça 
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos  

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Dual” 

“Outra curiosidade que gostaria de deixar convosco: há uns dias, um amigo dizia-me que os filhos já não obedecem aos pais nem aos professores… mas imitam-nos!”, concluiu D. José Cordeiro.

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